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Como analisar e contratar um seguro de transporte internacional

Dando continuidade ao meu último artigo, agora pretendo explorar como analisar e contratar um seguro de transporte internacional.

 

Como analisar e contratar um seguro de transporte internacional

 

Quando consegui comprar meu primeiro carro, fui logo buscar a contratação de um seguro para evitar problemas. Solicitei a cotação de bancos, seguradoras e corretoras para entender um pouco mais e ter noção de custos. Mas já no primeiro contato, tive uma imagem de qual seria o melhor caminho a seguir, pois:

 

– Os bancos demoraram uma semana para retornar meu contato perguntando se eu queria previdência privada e um título de capitalização para, só então, avaliaram a possibilidade de me oferecer um seguro;

– As seguradoras me disseram para ligar no 0800 e falar com um dos atendentes do call center;

– O corretor me ligou de volta e disse que passava no meu escritório no dia seguinte para que ele pudesse me explicar os pontos importantes da cotação e da apólice.

 

No seguro de transporte internacional, geralmente não é muito diferente disto…

 

Assim como qualquer seguro, neste também existem cláusulas que exoneram a seguradora de indenizar o segurado, algumas bem claras e outras um pouco subjetivas e sujeitas à interpretação.

 

A grande maioria dos importadores são meros peixinhos no vasto oceano de clientes de seguradoras, então tem menos força em uma disputa onda há brechas devido à estas cláusulas. Portanto, sempre recomendo a contratação do seguro por meio de um corretor ou agente com o qual você desenvolverá um relacionamento para que, no caso de um eventual sinistro, você esteja bem amparado. Ele será o peixe maior que irá te instruir no fechamento do seguro e defender seu caso perante a seguradora em caso de divergências.

 

Como analisar e contratar um seguro de transporte internacional

 

Como prometi em meu artigo Seguro de Transporte Internacional, pra que te quero?, minha ideia agora é lhe dar dicas valiosas sobre como analisar e contratar o seguro para o transporte internacional de suas cargas.

 

Preciso entender todos os termos e cláusulas para analisar uma proposta de seguro de transporte internacional?

 

Uma proposta completa de seguro de transporte internacional geralmente é bem extensa. Porém, a maioria dos itens nem são negociáveis, são simplesmente aderidos pelo contratante.

 

Todos os itens de uma proposta merecem ser lidos, mas acredito que os mais importantes são:

 

a) O valor do prêmio

b) A franquia da apólice

c) As verbas ou importâncias seguradas

d) O prazo de vigência

e) A lista de bens não compreendidos na apólice de seguro

f) O limite máximo de garantia

g) Os riscos cobertos pela apólice

 

O Valor do Prêmio

Como analisar e contratar um seguro de transporte internacional

Não, não é uma recompensa.

 

A palavra prêmio costuma confundir as pessoas com a indenização que seria paga pelo seguro, mas ele nada mais é que o custo da apólice. O seu valor gira geralmente em torno de 0,15 a 0,20% do total das verbas seguradas, mas em empresas com alto volume de operações, o prêmio pode chegar a ser mais baixo que 0,05%.

 

Por mais que haja variação, este custo representa um percentual muito baixo do valor total da sua operação para você arriscar ser mal atendido em um processo de sinistro onde pode acabar perdendo 100% do valor total segurado ou até mais em um caso de Avaria Grossa. Este é um dos motivos pelos quais não recomendo escolher só pelo preço, mas sim pela confiança e relacionamento.

 

No meu artigo Seguro de transporte internacional, para que te quero? eu explico melhor o termo Avaria Grossa e também as razões para contratar sempre um seguro de transporte internacional.

 

A franquia da apólice

A franquia é o valor que será deduzido do montante total da indenização devida no caso de um sinistro. Pode variar bastante, mas nas apólices básicas geralmente gira em torno de 1 a 2,5% do valor indenizável com um valor mínimo de mil a dois mil dólares.

 

As verbas ou importâncias seguradas

As verbas ou importâncias seguradas são os valores que irão compor uma indenização em caso de sinistro. Em uma análise individual, quanto mais verbas seguradas, maior a indenização. A opção mais básica é o seguro de somente o valor da carga no local de embarque, assim definida pelo valor constante na fatura comercial, não incluindo despesas com frete internacional.

 

Porém, temos ainda a opção de incluir as verbas abaixo por meio de cláusulas de coberturas adicionais:

 

a) Frete Internacional – Valor efetivamente pago pelo segurado para o transporte internacional da carga;

b) Despesas – Para averbação da apólice, geralmente são calculados 10% da soma dos valores de mercadoria e frete internacional;

c) Lucros Esperados – Para averbação da apólice, geralmente são calculados 10% da soma dos valores de mercadoria com o frete internacional e as despesas;

d) Impostos de Importação – É a soma dos valores reais pagos de II, IPI, PIS, COFINS e ICMS relacionados à respectiva importação.

 

O prêmio do seguro é calculado pela multiplicação da taxa acordada sobre o total das verbas seguradas.

 

Seria simples incluirmos todas as verbas na apólice sempre, mas não seria financeiramente responsável. Portanto, na hora de escolher quais verbas incluir na apólice, temos de analisar a natureza da operação e da carga.

Seguem dois exemplos de como eu recomendaria o fechamento e o motivo:

 

a) Um equipamento de alto valor agregado: Equipamentos podem sofrer avarias que envolvem valores altos, mesmo que em parte do equipamento. Nos casos em que ocorre este tipo de avaria após o despacho aduaneiro, os valores de impostos, despesas e o prejuízo pelo atraso da instalação do equipamento farão grande diferença na indenização, portanto eu recomendo sempre incluir todas as opções de verbas seguradas acima para estes casos;

 

b) Embarque recorrente de peças sobressalentes de baixo valor agregado: Neste caso, a maior preocupação é em cima do transporte internacional, portanto recomendaria uma apólice incluindo o valor da mercadoria + frete.

 

O prazo de vigência

O prazo de início e término da vigência da apólice é de extrema importância. Nunca perca o controle e não fique descoberto por nenhum dia sequer.

 

A lista de bens não compreendidos na apólice de seguro

Geralmente as apólices possuem uma lista de mercadorias que se excluem das garantias do seguro. Esta lista deve ser negociada na fase de proposta e exposta à todos os responsáveis por embarques de cargas da empresa.

 

Limite máximo de garantia

Principalmente ao embarcar cargas com alto valor agregado ou projetos de maior porte, devemos ter muita atenção no valor que é estipulado como limite máximo de garantia por viagem. Geralmente, este valor gira entre 1 a 2 milhões de dólares e, caso haja um embarque único com valor superior, a corretora de seguros deve ser avisada antes do início do risco para autorização extraordinária. Do contrário, haverá uma limitação no valor da possível indenização.

 

Os riscos cobertos pela apólice

O conjunto de coberturas inclusas na apólice do seguro é o que define quais riscos estão sendo transferidos à seguradora, ou seja, quando acontece algo à carga que está coberto pela apólice, este “algo” será um risco da seguradora.

 

As cláusulas de riscos são padronizadas pela SUSEP (Superintendência de Seguros Privados), órgão do governo responsável pela regulamentação dos contratos de seguro, e divididas em três conjuntos, sendo as Coberturas Básicas, as Coberturas Adicionais e as Cláusulas Específicas.

 

Existem várias opções de cobertura, porém, pretendo falar aqui somente sobre as mais comuns. Para empresas que transportam cargas refrigeradas, congeladas, animais vivos, batatas e outros bulbos-raízes, carga a granel sólida ou líquida, carvão, madeira, borracha natural ou juta, recomendo consultar diretamente a Circular SUSEP Nr. 354 de 2007 e conversar com o seu corretor para maiores detalhes sobre outras coberturas específicas.

 

a) Coberturas Básicas Restritas B – Nr 2 ou C – Nr. 1

Em ambos conjuntos de coberturas, os riscos são exclusivamente listados. Portanto, só há cobertura de um número determinado de riscos que estão claramente listados na apólice completa, excluindo-se os riscos constantes na cláusula de prejuízos não indenizáveis. Geralmente, a Cobertura Restrita C – Nr. 1 é oferecida pelas seguradoras para o transporte de mercadorias usadas. Ambos conjuntos de coberturas já cobrem as despesas com a contribuição por eventual Avaria Grossa e os custos judiciais para defesa do seguro em caso de desacordo com a companhia marítima.

 

b) Cobertura Básica Ampla A – Nr. 3

Esta é a cobertura básica mais recomendada, ao menos para cargas gerais e novas, pois protege a carga contra todos os riscos de perda ou dano material sofridos pelo segurado, excluindo-se os itens constantes na cláusula de prejuízos não indenizáveis. Geralmente as seguradoras não oferecem esta cobertura para mercadorias usadas. Assim como nos casos acima, os eventuais custos devidos à Avaria Grossa também estão inclusos.

 

c) Coberturas Adicionais de Frete/Seguro, de Despesas, de Tributos de mercadorias Importadas e de Lucros Esperados

Estas quatro coberturas adicionais são responsáveis pela inclusão destas verbas ou importâncias seguradas na apólice.

 

d) Cobertura Adicional de Riscos de Greves

Outro dia um cliente me ligou perguntando:

 

– Léo, sei que está prevista uma nova greve da Receita Federal, mas como na minha apólice de seguro está inclusa a Cobertura Adicional de Guerra e Greves, eles vão arcar com os custos extras com o atraso na liberação das minhas cargas, correto?

 

A resposta, infelizmente, é não. Seria uma ótima solução para este problema recorrente de paralisações de nossos AFRFB´s e fiscais de órgãos anuentes, mas este adicional cobre somente danos causados à carga por eventuais situações decorrente de Guerras ou Greves, como alguma manifestação ou “quebra-quebra”, não cobre nenhum custo extra com armazenagem ou Demurrage.

 

Porque não recomendo a compra de mercadorias importadas com INCOTERMS CIF ou CIP

 

Como mencionei no meu artigo Como os INCOTERMS podem influenciar os custos finais das suas importações:

Não recomendo importações onde o seguro internacional é contratado pelo exportador.

Digo isso por dois pontos muito importantes:

1- Geralmente, quando o exportador contrata o seguro, o importador não tem a chance de checar e escolher cada um dos pontos da apólice de seguro. Portanto, você tem cobertura, mas não sabe para quais riscos, verbas seguradas, vigência, etc.;

2- Se já não é simples conduzir um processo de seguro direto com uma seguradora no Brasil, contratada por você, imagine ter que recorrer ao exportador para intermediar este processo.

 

Em suma…

 

No que tange o seguro de transporte internacional para importações, minhas recomendações são:

 

a) Não compre mercadorias com seguro embutido. Se não houver outra opção, contrate também um seguro no Brasil e utilize somente este;

b) Sempre contrate o seguro com um mesmo corretor ou agente. Assim, você desenvolverá um relacionamento com um parceiro que irá defender o seu negócio;

c) Trocar um fornecedor de seguro para economizar 0,03 ou 0,05% do valor segurado e arriscar um prejuízo de mais de 100%, ao meu ver, seria a famosa economia porca. Só troque para uma melhoria de qualidade, credibilidade e/ou confiança;

d) Analise e negocie os pontos principais da apólice de seguro, busque entender um pouco mais destes pontos para não ser pego de surpresa.

 

O Comércio Exterior não é um bicho de sete cabeças, mas também não é para amadores. Portanto, busque sempre o aprendizado e o entendimento para diminuir riscos.